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Nomes, datas, rascunhos a tinta branca: o que é que o terrorista de Christchurch escreveu na arma que matou 49 pessoas?

Abel Resende
Nomes, datas, rascunhos a tinta branca: o que é que o terrorista de Christchurch escreveu na arma que matou 49 pessoas?

Era hora da oração para os muçulmanos. Os mortos são todos muçulmanos. Os feridos são todos muçulmanos. Mães e mulheres de lenço sobre a cabeça esperam à porta do Hospital de Christchurch e, como dá conta o New Zealand Herald, de tempos em tempos lançam berros na noite à medida que vão recebendo no telemóvel a mais temida de todas as certezas. Quase meia centena de mortos e outros tantos feridos, 20 em estado crítico, foi o resultado deste ataque terrorista sem precedentes num país considerado dos mais seguros e tolerantes do mundo. Se mais fosse preciso para associar este ataque a um supremacista branco, islamofóbico e anti-imigrantes, o terrorista fez questão de decorar as armas que usou no ataque com os nomes dos seus heróis.

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Ver Twitter Um dos nomes é o do neonazi espanhol Josué Estébanez de la Hija que, em 2007, matou o ativista de esquerda Carlos Palomino, de 16 anos, numa das carruagem do metro de Madrid. Foi a primeira vez que os tribunais espanhóis reconheceram as motivações ideológicas de um assassínio como fator agravante de um crime. Estébanez, explica o “El País”, é um ex-soldado do País Basco condenado a 23 anos de prisão que se tornou uma figura mítica para os seguidores das doutrinas de extrema-direita.”Free Josué” é uma frase vista um pouco por todo o lado no país, principalmente em cidades conhecidas pela concentração de elementos extremistas. O grupo neonazi Hogar Social Madrid presta-lhe homenagem nas suas demonstrações, tal como um outro grupo de extrema-direita, o Democracia Nacional. No dia do crime, Estébanez estava a caminho de uma demonstração deste último grupo contra a entrada de imigrantes

Ver Twitter Mas há outras inscrições nas armas que Brenton Tarrant, assim ele mesmo se identifica no Facebook, utilizou: Luca Traini, por exemplo, particularmente citado pelos meios de comunicação europeus por se referir a um italiano que feriu seis imigrantes depois de ter disparado do seu carro contra um grupo de pessoas na cidade de Macerata no ano passado. Segundo apurou o Ministério Público italiano, este crime foi uma vingança pelo assassinato e desmembramento de uma mulher supostamente por um traficante de drogas nigeriano. Foi condenado a 12 anos de prisão

Também há datas. “Vienna 1683” é um exemplo. Foi neste ano que se deu a Batalha de Viena, que marcou o início do declínio do Império Otomano, ou, como foi escrito na altura, o momento em que “os turcos otomanos deixaram de ser uma ameaça para o mundo cristão”. Foi a primeira vez que a Comunidade Polaco-Lituana e o Sacro Império Romano lutaram contra os otomanos apresentando uma frente militar comum. Na guerra que se seguiu, que durou até 1699, os otomanos perderam quase toda a Hungria para o imperador romano Leopoldo I

“Por Rotherham é uma referência a um escândalo de abuso sexual de jovens raparigas que ocorreu entre o final da década de 80 e até à primeira década dos anos 2000 naquela cidade do norte da Inglaterra. Os primeiros homens presos pelas autoridades faziam parte da comunidade paquistanesa local e o fracasso das autoridades locais em relatar os abusos durante a maior parte desse período levou muitos políticos a questionar por que razão isso aconteceu. As vozes mais conspirativas chegaram a falar de conivência entre as forças policiais e as comunidades muçulmanas por medo de serem acusados de discriminação ou mesmo por medo de represálias físicas. A Câmara de Rotherham encomendou uma investigação independente e em agosto de 2014 chegaram as conclusões: mais de 1.400 crianças, a maioria meninas brancas, foram sexualmente abusadas em Rotherham entre 1997 e 2013 por homens predominantemente britânico-paquistaneses

As referências a batalhas antigas são muitas e todas elas homenageiam os guerreiros católicos, incluindo os das cruzadas, contra o inimigo “mouro”. Gaston IV, o visconde de Béarn – cognome “O Cruzado”, atribuído pela sua participação na primeira Cruzada -, lutou na Reconquista na Espanha e marchou até Jerusalém para se tornar o primeiro dos cruzados a pisar a cidade. Também se lê o nome de Serban Cantacuzino, príncipe da Valáquia (hoje mais ou menos o espaço ocupado pela Roménia), que quis quebrar com a vassalagem aos otomanos e planeou uma marcha sobre Constantinopla para expulsar os otomanos da Europa. Diz-se que foi envenenado pelo seu irmão por se ter querido aproximar do catolicismo

O nome de Edward Codrington também aparece na arma. Britânico conhecido pela escassez dos seus dotes diplomáticos, esteve envolvido na Batalha de Navarino, em 1827, e deu ordens para que se destruíssem as frotas egípcia e turca, apesar de ter ordens para não o fazer. As suas ordens eram para que ajudasse a pacificar a Grécia envolvida numa Guerra de Independência, mas não foi isso que fez

O homem que matou esta sexta-feira 49 pessoas foi ainda mais atrás na história para expressar o seu apreço por personalidades que, de alguma forma, levaram sofrimento aos muçulmanos. Charles Martel é um exemplo: o governante francês exerceu o seu mandato nos anos 700 e afastou exércitos muçulmanos na Batalha de Tours. O avanço islâmico sobre a Europa Ocidental foi sempre uma das suas principais lutas e, depois de ataques intermitentes, as forças islâmicas sob o comando de Abdul Rahman Al Ghafiqi, o governador árabe de al-Andalus, avançaram para Tours, sem medo. Foram de lá expulsos numa batalha sangrenta pelos exércitos liderados por Charles Martel. Ainda no departamento “grandes líderes cristãos contra impérios árabes” aparecem Marco Antonio Bragadin, Sebastiano Vernier e Marcantonio Colonna, líderes da resistência veneziana à conquista otomana de Chipre, em 1570

O nome Novak Vujosevic, o protagonista da batalha de Fundina que ocorreu em 1876, em Montenegro, durante o conflito entre o exército cristão montenegrino e otomano, também mereceu uma referência. Esse e outros nomes de líderes nacionalistas que, nos Balcãs, lideraram a luta contra os muçulmanos. Os nomes Marko Miljanov Popovic e Bajo Pivljanin, dois dos comandante que lutaram contra o Império Otomano na Bósnia e Montenegro, também aparecem. Aliás, o terrorista dedicou particular atenção ao problema da divisão nos Balcãs e até tocou, no carro, no caminho até às mesquitas que atacou, uma música dedicada ao líder sérvio-bósnio Radovan Karadzic, que ainda espera o veredicto pelos crimes de guerra dos quais está acusado. O resultado dos últimos recursos é esperado para a semana

Já no século XXI, Alexandre Bissonnette é o nome que parece ter tido especial influência neste homem australiano de 28 anos que decidiu repetir em Christchurch aquilo que Bissonnette fez no Quebec em janeiro de 2017: abrir fogo sobre muçulmanos desarmados e em oração. O estudante francês-canadiano foi condenado a 40 anos de prisão sem possibilidade de pedir liberdade condicional

Em 2015, Anton Lundin Pettersson (outro dos nomes escritos nas armas), estudante sueco de 21 anos na altura, entrou na sua escola com máscara semelhante à de Darth Vader e esfaqueou três pessoas, todas de origem árabe. Lavin Eskandar, de 20 anos, assistente de um professor, originalmente do Curdistão iraquiano, morreu logo nos corredores da escola. Ahmed Hassan tinha 15 anos e era um estudante somali; morreu dos ferimentos no hospital tal como Nazir Amso, professor de matemática de 42 anos, também iraquiano, que foi esfaqueado quando pediu a Pettersson que retirasse a máscara. Morreu seis semanas depois

O número “14” também aparece várias vezes assinalado no armamento – mais uma referência à ligação deste atacante com os movimentos mais “recentes” ligados à supremacia branca. Catorze é o número de palavras contidas na frase “Temos de assegurar a existência do nosso povo e o futuro das crianças brancas” [“We must secure the existence of our people and a future for white children”], frase criada por David Lane, ex-líder do violento movimento “The Order”. Em 2007 morreu na prisão, onde cumpria uma sentença de 190 anos por envolvimento no homicídio de Alan Berg, um jornalista de rádio judeu. Além desse primeiro mantra de 14 palavras, ele tinha um outro: “Porque a beleza da mulher ariana não pode desaparecer da face da Terra” [ “because the beauty of the White Aryan woman must not perish from the earth”] e é reconhecido por todas as organizações de proteção dos direitos das minorias como um dos maiores ideólogos do supremacismo branco “moderno”. A tal referência ao “14” já foi utilizada em vários outros atos terroristas incluindo o do tiroteio na sinagoga de Pittsburgh (EUA, 2018)