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Avalanche de projetos de renováveis em Espanha obriga gestora da rede a travar licenças

O mercado elétrico espanhol está a ficar saturado de projetos de energias renováveis. A REE, gestora da rede elétrica espanhola (congénere da portuguesa REN), já recusou, até final de junho, mais de 26 gigawatts (GW) de novos projetos de renováveis, devido à falta de capacidade da rede para ligar os novos empreendimentos. Só essas recusas representam mais do que toda a capacidade de produção de eletricidade hoje existente em Portugal (20 GW).

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Das rejeições de ligação à rede, a maior parte, cerca de 20 GW, são projetos solares fotovoltaicos, e o restante são projetos de parques eólicos, segundo escreve esta segunda-feira o jornal espanhol “Expansión”

De acordo com o site da REE , os projetos já recusados por falta de capacidade na rede espanhola aproximam-se de toda a capacidade eólica e solar instalada em Espanha, que no final de junho ascendia a 28,5 GW, dos quais 23,6 GW eólicos e 4,9 GW solares. Em Portugal, segundo a REN , estão em operação 5,4 GW eólicos e 0,7 GW fotovoltaicos

O “Expansión” nota que o elevado interesse dos promotores de energias renováveis está a gerar uma procura por ligações à rede que quadruplica a ponta de consumo em Espanha. Isto é, se todos os pedidos de ligação à rede para projetos renováveis fossem concedidos e os parques instalados, Espanha ficaria com uma capacidade eólica e solar correspondente ao quádruplo das necessidades do país nos momentos de pico da procura de eletricidade

É que, segundo a REE, além dos 28,5 GW renováveis (apenas contando com energia eólica e solar) já instalados, Espanha tem ainda licenciados, mas não instalados, 62,9 GW renováveis, a que acrescem 84,4 GW solicitados mas que ainda não foram licenciados (nestes se incluem os 26 GW que já tiveram a recusa da REE mas também muitos outros projetos ainda em apreciação)

A forte procura de ligações à rede para instalar parques eólicos e centrais solares acontece num momento em que tanto Espanha como Portugal (mercados que estão há vários anos interligados e que funcionam como um só mercado grossista para produtores e comercializadores) assumiram compromissos de descarbonização para 2030

Esses compromissos passarão pela desativação de grande parte das centrais termoelétricas que estão hoje em operação. Em Portugal, por exemplo, a central a carvão do Pego será desligada em 2022, enquanto a central a carvão de Sines será desligada entre 2025 e 2029

Para compensar a saída do sistema dessas grandes centrais, a rede elétrica contará com um reforço da capacidade eólica e solar, aproveitando a sua complementaridade e usando a capacidade de armazenagem das barragens como ferramenta de gestão do sistema elétrico, juntamente com as centrais termoelétricas a gás natural (que também têm emissões poluentes, mas menos que as centrais a carvão)

No entanto, para que o aumento da capacidade de produção renovável se concretize, quer em Espanha, quer em Portugal, a rede de transporte e distribuição de eletricidade terá de ser reforçada em várias regiões, o que pode acarretar custos adicionais nas tarifas reguladas, a menos que esses reforços sejam pagos pelos próprios produtores, acomodando-os na sua estrutura de custos

Em Portugal também tem havido uma elevada procura por novos projetos de energia solar (no leilão de julho a procura multiplicou por nove a capacidade em leilão, que era de 1.400 megawatts), mais acentuada até do que na área eólica, embora os pedidos de licenciamento não atinjam a escala de Espanha

A implementação de todos esses projetos dependerá não apenas da capacidade de os seus promotores os financiarem (com ou sem tarifas garantidas de venda de energia à rede) mas também da perspetiva de escoamento da energia para outros mercados, quer no centro da Europa (com um reforço das interligações entre a Península Ibérica e França) quer no Norte de África (com mais linhas para Marrocos)